Pai não é Mãe

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Esse título pode parecer meio duro às vésperas da data comemorativa do Dia do Pais, mas duro mesmo deve ser Ser Pai. E foi olhando para mim enquanto filha, bem como para minha filha, que tirei essa conclusão.

Sempre que se fala em pai, uma emoção me traz lágrimas aos olhos. Tenho um pai maravilhoso, que nunca nos deixou faltar nada, muito menos amor, mas que amou de certa forma, como a sociedade ensinou ele a amar, num papel de ajudante, com certa distância, falando para os outros quanto nos amava, posterior as decisões de mãe. Foi assim que foi amado pelo seu pai e como achava que assim deveria ser seu papel. Não amou aberto e declarado, afinal, isso seria muito “delicado” da parte de um Pai. Amou baseado nos ensinamentos que recebeu, de que só mãe tem essa obrigação (e responsabilidade) sobre seus filhos. Mas, do seu jeito, amou e muito!

Eu e meu Pai
Eu e meu Pai – arquivo pessoal

E aí isso traz à tona, outros tipos de pais que tenho exemplo na minha família, pais de ocasião, pai de diversão, de cena e de momento. Pais que distorcem o heroísmo dos verdadeiros pais, somente por estarem presentes quando mais convém, dissimulando sua ausência com momentos de fácil recordação pelas crianças, que obviamente recordam mais da diversão do que da educação.

Aí olho para minha família, meu núcleo, e vejo o exemplo de um Pai de hoje, que não quer ser só um acontecimento na vida da filha. E para esses pais que são além de fotos em redes sociais, para esses sim, a paternidade deve ser muito difícil.

Primeira troca de olhares entre Pai e Filha
Primeira troca de olhares entre Pai e Filha – foto Roberta Martins

A começar quando engravidamos. Foi quando a vida desse pai começou a complicar, pois nos foi dito que, dependendo da via de parto que decidíssemos, existia a possibilidade dele não poder acompanhar. Sim, muitos pais são proibidos por algumas instituições de serem os acompanhantes de suas companheiras, o que é de direito de acordo com a Lei do Acompanhante (LEI Nº 11.108/2005). Essa foi uma das razões pelas quais optamos por um Parto Domiciliar Planejado, mas isso é assunto para outro post.

Depois, esses pais têm uma licença paternidade de até 20 dias! Mas a verdade mesmo é que 20 dias é muito pouco para um Pai que está acabando de conhecer seus filhos, para um Pai que pode (e deve) ter participação nas tarefas com o bebê! E há quem diga que não há o que um pai fazer em 20 dias com um recém-nascido. Mas é justamente nesse período que se constrói o tipo de paternidade que será escolhida por nossos companheiros!

Mas vamos lá, ser esse tipo de pai ativo, é difícil! Mesmo que seja verdade que “quando nasce um bebê, nasce um Pai e uma Mãe” e que essa mãe também passa pelo processo de dificuldade (e muitas!), conhecimento e aprendizado, mas ser Mãe é corporal, carnal, é visceral, é coração que bate de dentro pra fora. Ser pai não! Ser Pai é tête-à-tête, é sentir cheiro, é descobrimento, é conquista. É coração batendo de fora pra dentro. É aprender a dançar depois que a música já começou!

E em falar em música, foi com meu pai que construí muito do meu repertório musical! Enquanto era mais fácil minha mãe me apresentar as músicas do universo infantil. Foi com meu Pai que construi memórias de acontecimentos dos mais engraçados, divertidos e que me demandou coragem!

Eu segurando uma Perdiz que meu pai tinha caçado.
Eu segurando uma Perdiz que meu pai tinha caçado – arquivo pessoal

Aí vem a parte de desconstruir papéis, pois mesmo que estejam exercendo mais ativamente a paternidade, driblando as dificuldades para estarem mais presentes na criação de seus filhos e estejam se permitindo a sensibilidade de amá-los com força explicitamente, eles estão destruindo estereótipos centenários que delimitaram os pais como meros provedores enquanto as mães são cuidadoras. E isso ainda é muito complicado na nossa sociedade! Até mesmo para os nossos pais!

Pai e Filha
Pai e Filha – arquivo pessoal

Pai não é Mãe. E a culpa também é nossa, das companheiras que, como eu, tem a tendência de microgerenciar as atitudes deles, achando que somente nós que fazemos melhor. E talvez assim o seja, mas não é disso que se trata ser Pai. O Pai com seu jeito de agir com o dia a dia proporciona momentos muito diferentes do universo da Mãe.

Poucas coisas me deixam mais emocionadas do que ver a relação da minha filha com o pai. Querer descobrir e reproduzir coisas que ela só vê no pai. Me apresentar um universo fantasticamente improvável ensinadas pelo Pai e ela talvez não a encontraria em mim ou não aprenderia comigo. Com ele, ela vive um mundo diferente do que eu apresento constantemente. Um mundo mais isento de restrições, mais aventureiro. Cheio de momentos despretensiosos que as mães, muitas vezes, não ousam viver ou ensinar por achar que a sociedade vai julgá-las irresponsáveis.

Aventuras com o Pai
Aventuras com o Pai – arquivo pessoal

Assim, ele vai construindo uma paternidade que é mais que um evento, é um acumulado, especialmente porque Pai não é Mãe e que maravilhoso que é assim!

 

E se você quer saber mais sobre Paternidade Ativa deixo aqui embaixo alguns links que adoro:

Paizinho Vírgula – https://paizinhovirgula.com

Paternidade Ativa – http://paternidadeativa.org

Vila Mamífera – http://vilamamifera.com/osmamiferos 

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