O que a Suécia tem de bom – e como a política transformou o país

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“Tá pensando que aqui é a Suécia?”. Você provavelmente já ouviu essa frase por aí quando o assunto era um serviço público descomplicado e de qualidade ou um trabalho realizado com muita eficiência.

Eu moro na Suécia há 1 ano e 5 meses e posso atestar que a fama faz jus à realidade, mas, principalmente, que a realidade do país só é possível porque há um grande acordo nacional pra que todos tenham acesso a tudo. E, pra isso acontecer, primeiramente o país precisa recolher MUITO imposto.

O dinheiro na Suécia traz personalidades como a escritora Astrid Lindgren (autora de Pippi Meia-Longa), a atriz Greta Garbo e o cineasta Ingmar Bergman
O dinheiro na Suécia traz personalidades como a escritora Astrid Lindgren (autora de Pippi Meia-Longa), a atriz Greta Garbo e o cineasta Ingmar Bergman

Todo mundo que trabalha paga imposto, e o percentual varia de acordo com a renda. Um trabalhador médio paga em torno de 30%. Pras empresas, mesmo as que são equivalentes ao MEI, o valor pode chegar a 50%. O impacto disso é uma sociedade que não tem super-ricos e, com salários dignos e subsídios do governo, também não há superpobres.

Outro detalhe salta aos olhos na sociedade sueca. Mesmo quem é super-rico não costuma viver luxuosamente. Aqui ninguém tem regalia. Todo mundo limpa a casa, corta a própria grama e anda de bicicleta ou transporte público. Sai caro usar o carro todo dia, porque combustível e estacionamento custam caro – nem o estacionamento do próprio prédio/condomínio onde a pessoa mora é incluso no aluguel.

Aqui perto da minha casa tem um estacionamento que usa como mote essa variação de modais e o preço para parar o carro: “Estacione aqui e pedale a outra metade do caminho”. Assim você paga mais barato na mensalidade, emite menos gás carbônico na atmosfera e ainda faz uma atividade física prazerosa.

Carro <3 bicicleta = justo
Carro s2 bicicleta = justo

Também sai caro contratar serviços de faxina, jardinagem, reparos domésticos. Aliás, qualquer serviço é muito caro, como fazer as unhas ou cortar o cabelo. Na sociedade sueca não existe um trabalho menos importante que o outro. Todos são importantes e merecem ser remunerados dignamente.

Aqui não tem 13º, mas o tempo livre do trabalhador é encarado com seriedade. É preciso ter tempo pra estar com a família, pra cuidar da casa, pra trabalhar em projetos pessoais. E horas trabalhadas por fora são combinadas e remuneradas. Férias são remuneradas e com adicional, mas a parte mais bonita é que são 5 semanas de férias por ano, semanas sendo consideradas apenas os dias úteis, de segunda a sexta. Não se contam os finais de semana nem eventuais feriados, porque nesses dias você já estaria de folga mesmo.

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A criança é rainha na Suécia. Toda a saúde da criança é gratuita, das consultas médicas a exames a dentista e até remédios. Toda criança, independentemente da classe social, recebe um subsídio mensal até os 16 anos (o barnbidrag).

A escola primária, que começa quando ela tem 6 anos, é gratuita e inclui aulas de natação (porque a segurança está sempre em primeiro lugar). Até os 5 anos, a criança vai à pré-escola, que é uma creche. Todas as creches são particulares, mas a mensalidade é calculada sobre a renda familiar. Mais uma vez, quem ganha mais paga mais, quem ganha menos paga menos.

Isso se chama equidade, é dar
as mesmas oportunidades pra todas as pessoas.

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Ainda sobre crianças, quando elas nascem, os pais têm direito a licença remunerada. De 480 dias. Os dias devem ser divididos entre mãe e pai (ou as pessoas que fazem esses papéis), porque eles são vistos como igualmente responsáveis pela criança. Desde os anos 1920 isso é lei na Suécia, e, não é impressão sua, a data coincide mesmo com a primeira onda feminista.

Ellen Key foi uma escritora feminista sueca, uma das primeiras sufragistas, que defendeu que mães e filhos deveriam ser responsabilidade do governo e não do homem-chefe-de-família. Sou muito feliz que ela dê nome à creche que minha filha frequenta.

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É tudo muito massa, né? Mas eu não estou feliz. Porque eu vivo aqui, mas meu coração está no Brasil.

E, no Brasil de 2018, 46% das pessoas acreditam que:

  • “feminista não é nem mulher”
  • subsídio social é “bolsa-esmola”
  • cotas para minorias são absurdas
  • é muito atrevimento o pobre fazer faculdade
  • o salário mínimo é suficiente pra viver com dignidade
  • ter carro pra ir e vir não é privilégio, é meritocracia
  • possuir uma arma vai evitar e diminuir a violência
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#feminismo

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Pra ser como a Suécia, o Brasil precisa passar por uma mudança profunda, deixar de lado a eterna síndrome de casa grande e senzala e enxergar todas as pessoas como iguais. Pro Brasil começar a se parecer com a Suécia, os políticos precisam ser mais progressistas, entender que não há saída além da educação e da equidade de oportunidades. O abismo social é o grande problema!

Tudo isso se construiu com democracia e com um Estado enorme, que arrecada muito e devolve o suficiente pro povo. Com a maioria do parlamento sendo formado por partidos de esquerdaSocial-democrata (em sueco, Socialdemokraterna, o Partido Operário Social-Democrata da Suécia, equivalente ao Partido dos Trabalhadores), Meio Ambiente (em sueco, Miljöpartiet, equivalente ao Partido Verde) e Esquerda (em sueco, Vänster, que significa “esquerda” mesmo e é o mais “extremo”).

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Enquanto a campanha eleitoral pega fogo no Brasil, na Suécia também é tempo de eleições. De quatro em quatro anos, são escolhidos os representantes municipais, estaduais e federais, porque aqui tem rei e rainha, mas eles são “decorativos”, servem mais como representantes do país no mundo, não têm poder político. Existem vários partidos aqui (incluindo um feminista ❤️), mas oito são os maiores e que têm cadeiras no riksdag (parlamento). Da esquerda pra direita, eles têm nomes bem diretos: Vänsterpartiet (Partido da Esquerda), Socialdemokraterna (Social democrata), Miljöpartiet de gröna (Partido do meio ambiente), Centerpartiet (Partido do Centro), Moderata samlingspartiet (Partido Moderado), Liberalerna (Liberal), Kristdemokraterna (Democrata Cristão) e Sverigedemokraterna (Democrata Sueco). Este último, o SD, representa a extrema direita e o pensamento nacionalista e abertamente nazista. No vídeo aqui acima, minha professora de sueco explica que há uma divisão no riksdag, com a esquerda trabalhando junta, a direita e o centro trabalhando juntos, mas o SD é sozinho, porque ninguém quer trabalhar com eles. No entanto, eles vêm crescendo – assim como no Brasil. A votação aqui acontece em cédulas de papel 📝 . Ah! Nas fotos estão as casinhas de cada partido na praça da cidade. A campanha aqui acontece com dinheiro público. Além dos debates na TV, os partidos têm essas casinhas com material impresso e gente explicando as propostas e tirando dúvidas. Apesar de os candidatos serem conhecidos, não são eles que brilham na campanha: vemos o partido primeiro, não a pessoa. Bem diferente do Brasil, né? #eleicoes #suecia #suecialismo #riksdag

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Com políticos que têm carreiras fora da política, que não veem a vida pública como sustento vitalício e o melhor meio de enriquecer a si mesmo e a toda a família. Com partidos que têm projetos de país muito claros, defendidos a cada quatro anos por representantes, mas sem a criação de mitos nem salvadores da pátria.

As ideias estão acima das figuras.

A Suécia é verde-vermelha (a união dos partidos de esquerda é chamada assim) há décadas, sem alternância de poder e sempre com eleições democráticas – como, aliás, estava sendo no Brasil até o impedimento de Dilma.

Um projeto novo de país e de sociedade não se faz em quatro, oito nem 16 anos. Aqui são mais de 40, as gerações mudaram. E foi assim que todos aprenderam que ser “lagom”, viver em equilíbrio, sem ter muito mais do que se precisa, mas tendo acesso a tudo o que se quer.

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Se você chegou até aqui, achou que deve ser muito boa a vida na Suécia e gostaria de ver um Brasil um pouco menos desigual, você precisa escolher um lado nestas eleições. E esse lado é o do professor Haddad, que entregou São Paulo com incríveis ciclovias, painéis de arte urbana e Paulista aberta pras pessoas aos domingos, além de creches, escolas e prêmios de gestão e sustentabilidade conquistados ao redor do mundo.

E com a vice mais progressista e feminista que poderia haver, a jornalista Manuela Dávila. Juntos, elas a chapa que incorpora o zeitgeist, o espírito do NOSSO TEMPO. Significam liberdade, respeito, equidade, sustentabilidade, não-violência, todas essas pautas primordiais na política de qualquer país de primeiro mundo. Não é isso o que a gente quer?

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