A loucura que é alugar um apartamento na Suécia

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E mais precisamente em Linköping, onde moro. A Suécia é conhecida por essa crise imobiliária eterna: sobra gente, falta lugar. Não que tenha tanta gente assim por aqui, mas a história é muito preservada, então casas antigas e lindas muitas vezes não dão lugar a prédios imensos.

Em Linköping temos o agravante de ser a capital da aviação da Suécia. Ser sede da SAAB e ter caças em teste o tempo inteiro obriga a cidade a não ter prédios muito altos (e nos presenteia com acrobacias e aviões futuristas em altíssima velocidade cortando o céu de vez em quando).

Visitando o Museu da Aviação
Visitando o Museu da Aviação

Nos anos 60 e 70, o governo construiu prédios baixinhos por todo o país pra abrigar a população crescente, totalizando 1 milhão de residências em bairros mais novos e no subúrbio das cidades. É num desses que a gente mora, no bairro Ryd, e tem mais um desses no Ekholm etc. 

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Prédio do Milhão, vista da minha janela

Mas aí a população aumentou ainda mais de lá pra cá. Todo mundo tem onde morar, mas não é fácil encontrar aquela casa/apartamento que você se apaixona, chega na imobiliária e diz “É meu”. Tudo é muito peculiar aqui na social-democracia, e achei que fosse ser interessante compartilhar algumas curiosidades do processo.

  • As maiores imobiliárias são estatais

O governo possui imóveis próprios para alugar por um preço bem abaixo do mercado. Uma mão na roda, o problema é a fila.

  • Fila pra alugar e o sistema de pontos

Várias imobiliárias (estatais e privadas) possuem um sistema de fila pra alugar um imóvel. Você se cadastra online e, a partir daquele dia, começa a ganhar pontos. Cada dia é um ponto. Você pode fazer a busca por imóveis que atendam suas necessidades, mas cada um tem um valor em pontos (poäng) que você precisa ter: 100, 3.500, 5.600… Quando o apartamento é muito bom e em um bairro mais central, ele já é anunciado com uma pontuação alta. E o detalhe é que quanto mais gente se interessa por ele (e clica no botão do site dizendo que está interessado), o valor dos pontos vai aumentando e sendo atualizado ao vivo. Quem chega depois precisa ter mais pontos pra poder alugar.

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Apartamentos centrais com aluguel barato: é preciso ficar muitos anos na fila

O imóvel fica disponível por um período e, quando ele encerra, os interessados têm seus pontos comparados, e os cinco com mais pontos têm direito a visitar o apartamento. Na ordem da fila, você topa ou não ficar com o apartamento. Se topar, usa seus pontos, e eles zeram. Se não topar, continua com os pontos, mas também só pode recusar imóvel três vezes (porque não pode virar bagunça).

  • Eles não contam os quartos, contam os cômodos 

No Brasil, a gente é acostumado a dizer que vai alugar apartamento de 2 ou 3 quartos. Aqui, se você vir no anúncio 2 rök (rum och kök, cômodo e cozinha) significa que ele tem dois cômodos (rum) e mais a cozinha, sendo que os cômodos são sala e quarto. Ou seja, um apartamento de dois quartos aqui é um 3 rök ou 3:a, equivalente a dois quartos, sala e cozinha.

  • A gente só vê foto da fachada

Isso foi a coisa mais bizarra que percebi assim que entrei em contato com o mercado imobiliário sueco: o padrão (pelo menos em Linköping) é colocar no anúncio do imóvel somente a foto da fachada. Às vezes tem uma foto ou outra de um apartamento decorado, mas é coisa meramente ilustrativa, não é do imóvel que está para alugar. Pra se ter uma ideia melhor do apartamento, as imobiliárias descrevem o espaço, a vizinhança e disponibilizam a planta baixa.

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As duas fotos disponíveis são da fachada. Quando o prédio está ainda em construção, a pessoa assina o contrato com base apenas em projetos e plantas
  • Imobiliárias privadas: com busca online 

Quando não se tem pontos suficientes pra ganhar uma disputa na fila da estatal, a gente recorre a imobiliárias privadas. Tem algumas bem grandes, sem muita burocracia e busca online, como é o padrão no Brasil. A gente entra lá, procura as casas, vê a que gosta mais, entra em contato, combina de ver o imóvel e, se gostar, fecha o contrato. Essas imobiliárias são acostumadas a alugar para estrangeiros. A maioria dos imóveis é recém-renovado e já vem equipado com fogão, geladeira, freezer, lava-louça, lava-roupa e secadora. 

  • Imobiliárias privadas: sem busca online

Mas é a Suécia, então claro que tinha de haver outra forma diferente (pra não dizer estranha) de alugar apartamento. Existem várias imobiliárias e pessoas físicas com imóveis pra alugar que não têm site ou não têm uma área de busca no site. Eles disponibilizam uma seção que mostra a fachada dos imóveis que possuem e dizem pra entrar em contato por e-mail pra saber se há algo disponível. Às vezes tem, às vezes não tem, e eles respondem com informações, brochuras, preços pra ver se você se interessa. Interessou? Não é só responder o e-mail dizendo que quer fechar, afinal, na social-democracia todos precisam ter a mesma chance e entrar numa fila. E a forma que algumas imobiliárias encontraram pra ser justas é: marcar dia e hora pra que todos os interessados mandem e-mail solicitando o imóvel. Quem enviar antes do dia e hora combinados, terá o e-mail desclassificado. Eles usam a hora do e-mail pra ver quem mandou primeiro, quem mandou depois e assim formar a fila. O apartamento fica reservado por uma semana, e, se nesse tempo o contrato não for assinado, a fila anda. 

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  • Contratos de segunda mão e trocas

Outra maneira de conseguir apartamento sem muita burocracia é pegando um contrato de segunda mão, ou seja, a pessoa aluga um apartamento, vai passar um período fora, e subloca o apartamento pra poder levantar um dinheiro. A prática é legal e comum aqui, e as imobiliárias já têm formulários de sublocação que são assinados pela empresa e os locatários de primeira e segunda mão. Assim que a gente chegou, conseguiu um apartamento por três meses de uma estudante que ia fazer um estágio em Estocolmo durante o verão e precisava ter dinheiro pra pagar o aluguel lá. Os anúncios são particulares, e a parte ruim é que muita gente nem chega a responder. Também é ruim que tenha tempo determinado, tipo 3 meses, 1 ano. Mas é bom não ter despesa pra mobiliar casa num primeiro momento. 

E as trocas são exatamente o que você está pensando: você mora em um apartamento, uma pessoa mora em outro, e vocês trocam, transferem os contratos um para o outro. Já vi, por exemplo, anúncio de gente com apartamento de três quartos querendo trocar por um de dois quartos; ou gente que morava em dois apartamentos e quer ir morar junto em um apartamento só e vice-versa. Se a localização agrada, e o preço é compatível, a galera troca numa boa.

E isso foi tudo o que aprendi até agora, em 2 anos e 9 meses. Loucura, né? 😂

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